Friolfe.com -  Memôria da Galiza rural

Publicado o martes, 10 de junho de 2008
Da crise ficticia à autogêstom
Hoje ouvimos muito falar de crise, e algo de certo haverá, e eu crêio que Europa está em crise, mas nom sei realmente muito o que significa o término crise, e desde logo que os nóssos problemas nom têm a vêr com os de outros paises de Europa. E recordo a estes niveis o que me dizeia um amigo um dia, de que na Suiça há o fascismo que havia há vinte anos, e penso que evidentemente a Suiça é um pais fechado onde a nóssa gente nom se integrou e onde a represom moral se exerce mesmo sobre as próprias pessoas suiças, porque teve familia suiça de nascimento. E como falo da Suiça podia falar de muitos paises e estados europeus, incluido os tam admirados paises nórdicos que soim encabeçar as estatísticas de suicidios, violência contra as mulheres, etc.

E frente a esta crise europeia xurdem duas reacçons; uma que vemos bem na Italia de Berlusconi, que vêm a sêr o razonamento de que como nom há para todos e todas, eliminamos aos mais dévis, e frente a essa reacçom excluinte temos a dos distintos movimentos alternativos que luitam pela integraçom e o rechaço ao consumismo, os quais pódem asumir muito da Galiza rural em tempos nom tam lonjanos, onde funcionava a economia de troco, o trabalho compartido e o respeto à Natureza, e penso que muita gente que alimentava a sua lareira com carqueijas se horrorizaria de vêr tanta biomassa abandonada na Galiza mentres subem os combustíveis.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 6 de junho de 2008
Integraçom
Na Galiza está aparescendo um racismo que se fai temível para quem sendo de cá nos consideramos cidadás e cidadáns do mundo. Existe um racismo contra gente sudamericana, que por tudo estám emparentados com nós, e que nom vai parelho a um receio aos europeus, onde proliferam governos que bem tiram a fascistas, e que me metem bem mais medo que as sudamericanas ou sudamericanos.

Existe um racismo antiafricano, e esquecemo-nos de que nós roubamos quanto pudemos no continente africano, e temos boa culpa do subdesenvolvimento desse continente.

Mas existe um racismo tam sangrante ou mais que os outros, como é o que se exercita contra o povo xitano, que é tam galego como eu por mais que eu seja conseqüência da endogamia paramesa-paradelense, e eu gostaria de lembrar que um moço do Páramo foi noivo duma moça xitana, que esteve acampada no Canedo, hoje plantado de eucaliputs, e nom precisamente por xitanos. E quixê-se recordar que na minha infância, o Luis de Vilarinho teve por amigos a uns xitanos acampados em Regueiro Escuro. Son duas pequenas monstras de integraçom que a minha paróquia pôde aportar à Galiza e ao mundo. E desde logo quando eu viajo pelo país e vejo feísmo urbanístico, árvores centenárias tiradas,... sei que isso nom é obra de pessoas xitanas, africanas ou sudamericanas. Integremos e nom nos desintegremos nós.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 20 de maio de 2008
O Campo de Regueiro Escuro, a nom esquecer
Chamávam-lhe senhor Manuel, nom porque tevêse nengum senhorio, senon po um respeto bem merescido. Mas ficou na história como Campo ou Forquitas de Regueiro Escuro.

Durante a IIª República, o Campo nom passou de têr um captivo lugar, em Izquierda Republicana, que pesse ao nome podiamos dizer que era a direita moderada, na que estava a pequena burguesia com ánsias de modernidade. Mas com a chegada da guerra o Campo evolucionaria mais à esquerda, convertendo-se na pesso mais significativa de Friólfe que representará à Frente Popular, depois do assassinio de Evaristo Lôpez. O Campo ou Forquitas comvertereia-se em comunista e anticlerical até a morte, o qual o obrigou a alguma fugida temporal, mas quase milagrosamente nom teve necessidade duma clandestinidade continua.

Conhecim ao filho do senhor Manuel, Jesus, amante da música e a literatura popular -já finado-, e sei que se dedicava a fazer augardente, mas nom sei se tinha algum trabalho mais. A derradeira vez que vim ao Jesus foi merendando no campo do San Lourenço, onde estava a su irmá -emigrada em Barcelona- que me pedíu umas palavras para gravar em video e levar para Catalunha. Tinham outro irmão, mas paresce que renegou das ideias politicas e sociais do pai e também à familia.

Podía escrever algo mais do Campo, mais penso que isto já o saca do esqueço.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 12 de maio de 2008
A crise desde uma aldeia
Hoje falase de crise, e eu entendo que o capitalismo europeu está em crise, e penso que estamos num momento complicado a nivel mundial, com uma grande potência decadente -USA- e outra emergente -China- e dependerá dos movimentos políticos e sociais que tenhamos comida e outras coisas necessàrias para um mínimo de qualidade de vida.

Resulta surprendente que se culpe da suba dos cereais aos biocombustiveis mentres no Páramo noom subiu a produçom de cereais, e as pessoas que lá praticam a agricultura de ressitência só pódem usar esses cereais para auto-consumo.

Na aldeia a crise preocupa pouco, porque comida sempre haverá. Mas é preocupante que haja pessoas que queiram trasladar os problemas urbanos ao rural, num momento complicado em que nom se vê um possível relevo geracional. De outro lado, resulta espereançador vêr como ainda fica gente que pratica a agricultura de ressistência, ou como muita gente pratica a agricultura ecológica na sua horta.

Recordo um dia que eu lhes ouvía a dois comerciantes, de ascendência rural, dizer coisas pouco acertadas sobre a crise, mentres uma moça urbana me felicitava por um artigo sobre o compós. Ela estava no seu sîtio.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 5 de maio de 2008
Lembrança da minha literatura "perdida"
Até os quinze anos o que eu escreveia nom se publicou en nengum lado, mas eu escrevim desde que o soubem fazer, e assim tinha umas escritas rudimentárias, que considerava apontamentos para rematá-las de escrever algum dia. Estavam no que eu chamo galego-espanhol, pois eu na infância nom tinha consciência de que o galego fôsse um idioma distinto do castelhano ou espanhol, mas usava a minha lingua mãe como um dialecto diferenciado, e teve a sorte de que na primeira escola que fum o mestre nos falava galego.

Há algum tempo estas primeiras escritas minhas foram ao lixo, e nom me resigno a esquecer as guerras entre Nacho e Bocho Biocho, os amantas da Clara, o velho caminho, chamado a Corga dos prados, onde eu lindava duas vacas... aqueles esboços de literatura que conheceram o Berto, o Avelino de Seoane, a Joana, a Manola, a Marí-Ví e o Domingos -o meu primeiro mecanógrafo-.

Fique pois isto como lembrança do meu primeiro que-fazer literário e dum tempo oressivo e contraditório que, a pessar de tudo, me produze saudade.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 24 de abril de 2008
O Carrasquedo
No Páramo chámasse-lhe carrasco á carqueija e outras matas lenhosas, e Carrasquedo chámasse-lhe a uma pequena porçom de terra entre o Cochom e a Armada, e há destas matas lenhosas. Realmente nom se sabe onde empeça e acaba o Carrasquedo, e para muita gente é simplesmente onde empalma o caminho que vai a Friólfe dende a estrada da Póvoa a Porto Marim. Mas será dificil que alguem nom saiba onde está o Carrasquedo sendo paramês, porque o Carrasquedo era parada extraoficial do autocarro que facía a linha a Lugo, dos que levavam a gente às feiras, às vodas e aos enterros. E no Carrasquedo parava o autocarro que levava as crianças à escola da Póvoa há muitos anos. E quando os veterinários nom iam enseminar as vacas às casas construiu-se um potro no Carrasquedo, mas a sua funçom nom se limitava à gente que ia enseminar as vacas, pois produziasse uma importante relaçom social, com a gente que ia do auto-carro, andava lindando vacas... sobretudo quando chovia.

Há algum tempo o caseto do potro do Carrasquedo foi destruido e metido numa finca privada. Estámos alfeitos no Páramo a que se nos destrua tudo, e en quando vaia buscar carralhotes e chova nom terei onde abrigar-me no Carrasquedo, e o únbico que me fica é sentir saudades, ou quiçá senardades.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 15 de abril de 2008
Cámbio climatico e salvaçom do mundo
O cámbio climatico e algo do que se fala muito, e algumas pessoas som muito pessimistas, e as coisas podem sê-lo.

Às vezes as pessoas padecemos doenças incuraveis, e o único que nos fica é adaptar-nos a elas, com medicamentos e o que seja, e á Natureza quiçá lhe passe o mesmo, e nos tenhamos que comportar-nos entendendo isso.

Nom sei até que ponto o cámbio climatico é "incurável". Tenho escrito sobre o que as pessoas pobres podemos fazer, modificando os nóssos hábitos de consumo, e nalguns casos os de produçom. Os capitalistas já vemos que se preocupan da "doença" com energias alternativas, mentres nos seguem vendendo as convencionais.

Agora quixê-se por un exemplo de como a luita contra o cámbio climatico e distinta desde distintas classes: Na Montanha do Páramo puxo-se um parque eólico, que nom influi no cámbio climatico, mas sim sobre os seus efectos na zona, pois o cámbio climatico trazerá um aumento de pragas e o parque eólico vai fazer desaparescer depredadores. O parque eólico fazerá cambiar o rumbo das augas que nessa montanha nascem, o que será nefasto nos periodos de seca que o cámbio climatico produze para terras que recebiam essas augas.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 14 de março de 2008
Volvim acolá
Este era o titulo dum poema que eu escrevim há bastantes anos, crêio que num papel dum saco de penso, e que musicalizamos na velha casa do Henrique do Cunqueiro. Ignoro se conserva este poema entre os montóns de papeis e se sucumbió à crítica destrutiva dos ratos, que diría Marx. Podía escrevê-lo de novo porque o lembro de memôria, mais melhor deixá-lo em que Volvim acolá, porque aquele poema era um berro de protesta contra o primeiro repetidor que puxeram no baldío de Friôlfe, pelo que a próquia nom cobrara nada. E ultimamente Volvim acolá ver por última vez uma terra fermosa que será destruida por um parque eólico que fai bem mais dano que os repetidores. E digo que fum por última vez, mas devê-se dizer por derradeira, dado que non crêio que na minha vida volte vêr aquele monte semelhante ao que era. Aquele monte rico em caça, aves rapazes, centeno, pereiras bravas... será destruido para produzer energia para fóra, e menos mal que ficam umas fotos que fixo umn amigo, do que era e nom será.

Recordo quando eu repartia propaganda contra a guerra do Iraque e D. Tomás me dixo: "Com o dinheiro nom pódes. A avaricia duns poucos pudo com o amor à terra de outras e outros", e por umas moedas venderam a Monhtanha do Páramo como Judas a Jesucristo, e o único que se lhes pôde desejar é que se arrepintam e acabem como Judas.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 25 de fevreiro de 2008
Recordo do meu bosco animado
A Vinha do Cura chama-se assim porque foi dum cura de Friólfe, e está no Cotedo, em Santema. Esteve rodeado sempre de mitificaçom, pois cria-se que o bom vinho procedia das parras americanas e nom da terra e do microclima. E no franquismo o caseto desta vinha converteu-se num simbolo da ressistência ao regime ao crerse que lá se agachava um figido.

A principios de anos noventa de seculo passado trabalhei em esta finca, onde da vinha apenas ficavam umas cepas, que davam sabrosas uvas e mesmo fixem algum vinho bastante bom segundo quem o bebeu. Havia uma carvalheira de onde obtivem abono para o resto da finca, onde colheitei alhos, ceboletas, acelgas, chícharos e outras coisas que a seca me levou. No caso das leguminosas nom as sementei já para que dessem fruto, senom para que a meio do riçóbio metessem nitrogênio à terra.

Trabalhando aquela terra fum feliz, com as vizinhas e vizinhos das leiras do lado, com a companhia das minhas cadelas, vendo os lagartos e as aves. Aves que às vezes me comeiam o que colheitava ou o que tin ha sementado, mas a fin de contas algo há que aportar ao mantimento da Natureza. E a aquilo que tinha para compós iam os roedores, e trás deles as véboras.

Nefastas circunstancias pessoais levaram-me a abandonar aquela terra, empeçando uma noite fecha que durou varios anos. Quando passo por lá, sinto saudades dum tempo que non soubem ou nom pudem encauçar.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 18 de fevreiro de 2008
A Associaciçom de vizinhos de Friolfe
A finais dos anos setenta do século passado criou-se uma associaçom de vizinhos em Friólfe, que embora foi efimera dinamizou bastante uma paróquia submida no esqueço por parte das administraçons. Tres pessoas seriam fundamentais na curta vida desta associaçom: O Manolo da Cal, grande organizador do povo, o Henrique do Cunqueiro, que deixou o local e a Zélia, que demonstrou que a vida social das mulheres nom se devia limitar ao lavadoiro.

Durante o breve tempo que durou esta associaçom, aparte da ediçom do boletín Unidade que supunha a recuperaçom da historia da paróquia, intervíu na reivindicaçom do arranjo de pistas, colocaçom de indicadores, reivindicou o pago do terreno comunal ocupado polo repetidor de TVE, assim como a entrega do dinheiro procedente da madeira do baldio. Mas sem dúvida a luita mais importante desta associaçom foi conquerir o reparto dos correios em toda a paróquia.

Finalmente a Associaçom de Vizinhos de Friólfe disolveu-se por culpa das liortas construtivas entre aquela gente da paróquia que se dedicava à construiçom e ficaram sem fazer os lavadoiros de Vigo e Outeiro e lo local social.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 14 de janeiro de 2008
José Lôpez Díaz, de Escouprim
Tem-se falado bastante deste home no Páramo, onde foi concelhal republicano, mais por ânsias de modernidade que por consciência de esquerda.

Há já bastante que pudem lêr algo do que ele escreveu na II República e soubem que era um home de forte formaçom cultural, que me surpreendeu por tratar-se dum lavrador de Friólfe que tinha que sêr praticamente autodidacta, e recordei a arquitectura que deixou arredor da súa casa, os metais dos seus picaportes realizados pelo Pesco, os móbeis feitos por artesanos da zona.

José Lôpez Doiaz foi membro da Sociedade de Lavradores de Friólfe que scomprou máquinas em comum para poder produzir mais com menos esforço, mas a vida desta sociedade seria efímera. Na sua vida meteu-se uma traida de auga no seu lugar e fixo-se um lavadoiro, com uma fonte que estava na sua finca, e no moinho que tinha noutra finca puxo-se uma dinamo para produzir luz.

Na vida deste home o lugar de Escouprim era referência de modernidade, e crêio que algo ainda se pôde aprender e admirar visitando este lugar.

Suso L. Gaioso
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Publicado o mércores, 2 de janeiro de 2008
SUSO MORREU
Suso era um vizinho meu que enterramos o dia de noite velha, o mesmo que outro vizinho de Páramo da sua idade, filho dum velho sindicalista, do que tenho boa lembrança duma vez que coincidim com el num autocarro.

Suso foi o último morador do seu lugar, e cuidava voltar a ele quando saira do hospital, mas nom o pudo fazer. O canero non lhe deixou.

No Redondo, o lugar do Suso, chegou a haver cinco casas habitadas, mas hoje nom há nenguma. O alumeado público e o contentor do lixo nom prestam serviço a naide, e como lá podiam estar em muitos sítios do Páramo por onde transinte qualquer.

À veira do Redondo havia dois lavadoiros, que davam sensaçom de vida ao lugar, onde havia cádavos, ninfas de libélula, rãs, sabandijas... que eram a garantia de depredaçom das pragas. Estava, o Redondo, rodeado de soutos e carvalheiras e os grandes valados eram testemunha do trabalho humano. Carvalhos e castinheiros ficam, e valados também, mas pouco haverá quem apanhe as castanhas.

Em fim, que a morte dum vizinho levou-me a Friólfe num dia triste, nevoento, para vêr um mundo que se foi.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 21 de dezembro de 2007
Lembrança do primo Bautista
O Bautista nasceu na aldeia de minha mãe, na casa da que saira minha avóa. Nos anos cinquenta do século passado, entre a fortuna que produzia a demanda de cereais e o autoconsumo. A sua casa era um exemplo de arquitectura integrada na Natureza, e uma casa sóa quase era um povoado, nom só pela grandura da casa, senom porque antes de nascer o Bautista chegou a haver dezasete pessoas naquela casa. E aquela casa estava numa aldeia onde tinham muito pesso as mulheres, a pessar do machismo imperante, mesmo por isso, já que o home tinha mais facilidade para emigrar. E essa aldeia estava numa paróquia enfrentada ao franquismo, que respondera com cárcere para três homes.

Quando o Bautista foi moço pertenceu a aquela mocidade própria do Páramo e Paradela, famosa por consumir muitos cuba-livres, e namorou-se pronto duma moça. Uma vida normal dum moço de aquelas terras. Mas cansava nos trabalhos até que um dia o foi vêr um médico, privado, dado que a Segurança Social de aquela nom era universal. Ele estava a pouco de ir à mili, e este médico dixo-lhe que alegara doença, já que ali tinham mais meios, para mirá-lo pois tinha o fígado mal. Mas o Bautista nom alegou porque de aquela nom se sentía mal, e quiçá porque quem nom facia a mili nom se facia home, ante a gente submisa ao regime; fazer a mili e gastar bastante mentres se facía era já sêr um home adulto, embora naquela zona houve-se gente que nom estava com o régime.

E o Bautista veu da mili e seguia-se cansando. Até que foi ao médico e lhe descobríu uma hepatite; empeçou a tomar medicamentos, parou de beber alcool e levar uma dieta na alimentaçom. Mas segueia cansando e hinchando. Várias vezes esteve hospitalizado. Havia momentos bons, mas onde mais estava era na cama. Acompanhava-o eu quando ia buscar os correios da moça ou colher o taxi para í-la vêr, pois a súa aldeia nom chegava nengum automóvel. Paravamos muitas vezes a tomar algo na velha taverna de Miralhos, onde já nom havia grandes tertúlias nem boas comidas, senom uns refrescos e vinho e cerveja, como se aquele mundo estevê-se esmorecendo, mas nom eram maus tempos para a gente do sítio realmente, dado que estava aparescendo a mecanizaçom do campo, e muita gente vinha de Suiça com dinheiro. Era a transiçom politica que dava certo ar de liberdade e esperança, embora permaneceram preconceitos criados no isolamento e na submisom.

O Bautista quixo sacar o carnet de conduzir e marchou-se a Barcelona, onde tinha familia, e sacou-no mas já nom poderia usá-lo porque lhe chegaria pelos correios uns dias depois do seu enterro. Tinha vinte e sete anos.

Recordo principalmente um dia lindando as vacas, nos Balados, que esteve mirando uns apontamentos literários meus dos que gostou, mas nom pudo vêr nada meu publicado.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 17 de dezembro de 2007
UM ANO SEM O BERTO
Avelino Castro, o Berto, era um home da aldeia na que eu nascim, à que quixo toda a sua vida, até o ponto de que nom gostou de que no prólogo do meu último livro nom saisse que eu era de Vigo. Ele está nesse livro e noutras partes da minha literatura, onde soo definí-lo como "aquele home".

Nom justificarei nunca a sua simpatia por pessoages fascistas, a sua defessa atroz da propriedade privada ou os seus comportamentos resentidos, embora uma analise do mundo en que viveu é possível que o libertá-se de culpas, e o Berto noutro espaço e noutro tempo quiçá fôsse algo distinto. Mas isto deixemo-lo para quem entenda de psicologia e sociologia. O meu agora é o reconhecimento a uma pessoa que influiu na minha vida e a de outras muitas pessoas de jeito positivo.

Na nóssa infância nom tevemos a melhor das escolas e sem o Berto e outros homes e mulheres nom teriamos um minimo de cultura. A sua vinculaçom ao nósso ensino está também pelos aperos en miniatura que havia na escola de Outeiro, feitos por ele, que como no poema de Manuel María, o aradinho de pao levava timom e chavela. Mas no meu caso passei horas arredor do caldeiro no que se cozía aos porcos e noutros sítios conversando de temas que com outra gente era impossível. E tinha uma certa capacidade literária para inventar histórias ou versificar.

O Berto fora aluno de don Pedro, o mestre cordovês de Friólfe, assassinado no seu povo de Priego onde nem sequer se sabe da tomba, mas que graças a gente como o Berto logramos sacar do esquecemento histórico, por mais que ainda fique muito por desempoar. O mestre republicano fora un adiantado para a súa época, e ésto sabiam-no o Berto e algumas pessoas mais, que lhe ficavam obrigadas nom só pela sua integraçom social na freguesia, que contribuiu à sua participaçom em obras e acontecementos comuns.

O Berto fixo obras na sua vida que som exemplo de arquitectura popular no meio do feismo, e nom digamos o cuidado das suas fincas, mesmo quando já nom as trabalhava ele, com paredes e gaveas bem cuidadas, com cultivos ageitados, com umas cancelas que chamavam a atençom a quen arredor passava.

O Berto converteia em abono o lixo orgánico, sendo assim exemplo do que se deve fazer, sobretudo quando nom se quer pagar mais pelo bilhete de recolha do lixo.

Em fim, foi-se um home há um ano e o povo já nom é o mesmo, porque já nom há com quem falar, que aquela mulher que também nos integrava na história, que era a Vitória do Rego, morreu já antes que ele. E onde estejam os dois, a mim dam-me força para amar a Vigo de Friólfe, por mais que nom semelhe mais que um montom de pedras à beira do pequeno regueiro Quelhe com o seu canto saudoso, que me fai recordar quando o Berto me convidou a comer uma lebre que ele caçara e a sua mulher -boa bozinheira- guisara. Foi há muitos anos, mas semelha muito recente. A lebre era do Cochom, crêio, e tinha a carne preta.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 13 de dezembro de 2007
O cura de Santa Marinha
A d. Heladio chamavam-lhe o cura de Santa Marinha, nom porque fôsse paroco duma freguesia que se chame-se assim senom porque no lugar de Santa Marinha está a reitoral de Adai, paróquia do Páramo que tem um aquele de transiçom pela sua ubicaçom no centro do concelho; ademais conhece muita mais gente Cendoi que Adai, dado que Cendoi é uma aldeia de tradiçom comercial e vocaçom urbana, pelo que há certa ribalidade, pois os de Cendoi "ignoran" a miudo que pertencem á paróquia de Adai. E d. Heladio viveu esta contradiçom, à que sempre respondeu desde a coerência geografica-historica, frente aos comportamentos chauvinistas de gente de Cendoi.

Nom quero cá recordar a este home péla religiom, ainda que cumpre dizer que sempre si situou cerca de movimentos progressistas e galeguistas dentro da Igreja católica, algo pouco comun nos curas do Páramo.

Era um home de grande capacidade intelectual com quem tenho conversado de muitos temas. E hoje que no Páramo nom há nengum intelectual boto-o de menos.

Era home amante da cultura galega e organizara coisas como um concerto de Fuxan os Ventos, ademais de missar em galego.

Repugnava as acçons caciquís e loitou muito para que se fixeram obras comuns de forma democratica.

Há anos vim-no por derradeira vez e recordo que dixo "já nom temos vinte e sete anos". Poucos días tardou en sêr o enterro, com uma grande folclorada, que entrou em contradiçom com o que ele tinha dito em vida, más algumas pessoas ainda o lembramos tal e como era.

Suso L. Gaioso
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Publicado o sábado, 1 de dezembro de 2007
Manolo, o "Tiburcio"
O "Tiburcio" chamava-se Manuel, mas com era filho do Tomé de Cendoi, o que empeçou sendo o nome da casa acabou em apodo, por mais que soe bem distinto.

O "Tibúrcio" nasceu em Cendoi, uma aldeia da freguesía de Adai que era a mais comercial do Páramo, e que semelha que no futuro será uma vila, nom muito ordenada.

Os pais do "Tibúrcio" eram taverneiros, a mãe boa cozinheira e o pai nom mau lavrador. Junto á Marinheira, uma finca que dá bons cogumelos, tojos, carqueijas e carvalhos, os pais do Tibúrcio tinham uma esterqueira, numas folgaças chamadas a Estrada, onde faciam um esterco anaeróbico muito bom. E na Marinheira, o "Tibúrcio" fixera um caseto pegado a um carvalho, exemplo da micro-arquitectura paramesa.

Na escola surprendia o Manolo pela sua inteligência, mas davam-lhe ataques epilépticos e pronto alguma gente o foi pondo por tolo, o qual deveu sêr muito duro para ele, pois eram tempos de pouca compreençom.

Os pais de Manolo morreram, e ele quixo seguer com a taverna, e os melhores clientes que tinha eram os adolescentes que lhe iam comprar navalhas, máquinas de fazer cigarros,... Pronto foi deixando de têr mercancia, sempre dizeia "temos o pedido feito", mas nunca lhe chegava. Também segueu trabalhando a terra, com umas vacas extremadamente fracas, que lindava no que eu e um vizinho defenimos como zona mineira de Friólfe, pois de ali sacou-se grava e argila, e o Manolo segava érva regada pelas fertis augas do pequeno regueiro Quelhe, que quando subia de caudal, por lá ancorava. Mas o Manolo nom sempre dava levado a érva para a casa, e ás vezes acabava queimando-a quando já estava podre.

O Manolo estava fascinado pela tecnologia, e dedicou-se a buscar auga e mirar o sexo do embriom dos ovos, com os seus aparatinhos, mas semelha que nom acertava muito.

Finalmente, o Manolo ficou sem vacas e sem taverna e ajadava a uns vizihos, parentes lonjanos, que também tin ham taverna, onde pela noite soía estar com a gente, contestando filosoficamente ao que a gente dizeia, e alguma vez contestava em verso. A pessar de que nunca um poema deveu escrever, pôde considerarse um representante da pesia paramesa. E nom digamos já nada das suas dotes matematicas, pois facia operaçons con mais rapidez que uma calculadora.

Finalmente, o Manolo feriu-se na cabeza duas vezes seguidas, pelas caidas de outros tantos ataques epilépticos. A partir de ai o seu estado psíquico deteriorou-se e acabou no manicómio de Castro, onde segue. Um dia fum-no vêr e já nom me conhecia porque, segundo ele, já tinha cinquenta e oito anos, três meses e non sei quantos dias. Laiava-se de que nom lhe deixavam pôr boina nem coisa "semejante" e lhe facia dano o sol, pesse a que estava á sombra.

Vaia logo, o meu recordo a aquele home algo negociante, algo lavrador, algo poeta, algo matemático, algo filosofo... Porque o "Tibúrcio" era algo de tudo, e seguê-o sendo.

Suso L. Gaioso
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Publicado o domingo, 18 de novembro de 2007
FERREIROS
Ferreiros é uma paróquia que baixa da Montanha do Páramo até a ribeira do Loio, pertencente hoje ao Concelho de Paradela, outrora ao Condado Paramiensis. E uma paróquia de importantes caminhos, como o Caminho Francés de Sant Iago ou a Carga dos maragatos pela que iam à feira do Páramo os comerciantes de mais lá do Berço. E tem, Ferreiros, um penedo como pico do que se chama o Monte maior ou as Lajes, no limite com Friólfe, que um cura desta freguesia chamava a "aduana". O mito diz que as Lajes som terra de vinho, e hoje estám na denominaçom de orige Ribeira Sacra _injusta com Frilólfe, antiguo Couto das Bernardas de Pantón_ mas duvido que se desse muito vinho nesse pico da Montanha do Páramo, superado em altura só polo Faro.

Une-me a Ferreiros a minha familia materna e a paterna, e vêr Ferreiros fora do Páramo quase me é impossível, mas as aldeias dessa paróquia onde eu tinha raizes familiares estám condeadas a desaparescer, como desaparesceram os caminhos pelos que lá ia e as gentes que nas terras pelas que passavam trabalhava.

Ferreiros sofre a despopulaçom num dos concelhos mais pobres da provincia de Lugo, pesse a que há grandes propiedades, mas a terra sem amor nunca dará nada, e o amor á terra exige organizar-se.

Ferreiros teve uma igreja románica na Eireje e um hospital em Miralhos, onde agora está a igreja contemporánea, lugar famoso pela cozinha da senhora Pepa.

O Caminho de Sant Iago há anos tinha um aporte cultural que impediu que nesta freguesia se destruissem calçadas e outras coisas. Mas o Caminho massificou-se e desde que empeçou essa massificaçom as coisas cambiaram e xurdiu a sujedade deixada arredor do caminho, o chauvinismo de quem como nom sabe oferecer o que tem, inventa e em Ferreiros agora "há" obras románicas, campos de feira e outro montom de coisas, mas nom "há" a capela da Parede ou a de Fruginde, nem a fermosa arquitectura popular á que nos últimos tempos lhe engadiram bloco e outras coisas pouco acertadas.

Recordo há bastantes anos uma Ferreiros cheia de gente, quando minha avóa estava com a derradeira doença e eu lhe ia buscar os correios ao primo Bautista, que morreria vitima das deficiências sanitárias, milho e centeno que alimentavam saborosas carnes, como as das perdizes e coelhos, como as cristalinas augas dos micro-rios que o mito sostinha que saiam dum rio subterraneo que levava tanta auga como o minho no verão; micro-rios, digo, porque em Ferreiros se emprega pouco a palavra regueiro. A Ferreiros de vida, embora as carências, interessa-me mais que a do consumismo que aniquila os arredores. Saudades!

Suso L. Gaioso
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Publicado o mércores, 14 de novembro de 2007
De Friólfe ao Rio da Ponte
Há anos andei pela Terra Chá e onde a montanha se junta com esta, e pudem vêr povos praticamente valeiros, onde os seus moradores estariam no fim de semana, uma ou duas vezes ao mês, ou quiçá uns dias ao ano. Naquel tempo _ano 1989_ o Páramo perdera populaçom, pesse ao retorno de emigrantes desde a metade da década anterior, mas permaneciam a maioria das vivendas habitadas.

Recordei o outro dia isso ao passar por vários núcloeos desabitados ou semi-deshabitados, pesse a que gente de fora está comprando casas. Como me dizeia a pessoa que me levou no automóbel desde a Póvoa, "em Friólfe já nom se vê gente nos caminhos". No Canto de Friólfe aonde a gente levava o leite ao camiom da recolha, já nom está o velho nogueiro centenário, nem há folions pelo Entroido, porque na maior aldeia da próquia já pouca gente fica, e o feismo urbanístico dá ganha de nom mirar, e dá ganha de nom voltar passar ao vêr o abandono do caminho de Penença, de onde a legenda diz que gustaram a pedra da igreja de Friólfe, e onde desaparesceram muitos carvalhos centenários. Mas Penença non é nada comparada com o Rio da Ponte, sítio mítico da paróquia. Lá a auga dos canhos tem inundado o caminho, a pessar da seca, a ponte ao melhor nom tarda en cair e os pinheiros insignes nom estám do mais acaido.

Lugares e aldeias de tijolo e bloco fam que a Galiza rural se aproxime á cultura de subúrbio, alheia por completo ao mundo que a rodeia; enclaves urbanos num agonizante rural, do que apenas fica uma agricultura alheia a Natureza; a cultura do subsidio por cima da criaçom.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 9 de novembro de 2007
A TAVERNA DE SEOANE
Na capitalidade de Friólfe havia uma taverna, à que iamos as crianças vêr os filmes de vaqueiros na televisom, beber gasosas e algum alcoól. Era um ambiênte bonito porque, a pessar de viver numa ditadura, a censura politica nom chegava a aquele lugar e a mediatica era menor que hoje. O Escouprim explicava-mos com oera a guerra, o Fermim invitava-nos a brandi e o Jaco e a Maria traeian as novas pornograficas quando iam a alguma feira,... Inesquencível será sempre o Henrique do Cunqueiro, que viveia ao lado.

Fora esatava o velho cemitério de Friólfe, no que as crianças quitavamos muricegos dentrás das lápidas. Havia por Seoane uma rara graminea que semelhava trigo, mas nom botava grão. Havia também azevinhos, que lá chamamos escorna cabras, e uma rara planta que no sítio chamamos rabo de çorro. E havia soutos e carbalheiras e muitos frutais, destacando as ciroleiras e ameijeiras.

Um dia pechou-se a taverna e a vida de Seoane foi esmorecendo. Hoje um dia normal Seoane está valeiro. Obras que desentonam com a paisage, onde a Cámara municipal do Páramo dou para obras privadas, é o único que fica naquele lugar de tanta história.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 8 de novembro de 2007
TRISTE DEZASETE
O dia dezasete é triste para os democratas do Páramo, por três fatidicas coincidências.

Paresce sêr que foi um dezasete dalgum mês, dia de feira na Póvoa, quando o cadaver do fugido sr. Dositeu foi exposto aos feirantes e demais transeuntes no Alto do Pico, coberto de moscas.

Um dezasete de Dezembro morreu Evaristo Lôpez, depois da paliça que os falangistas lhe deram em Santema. Era católico mas nom foi canoniçado nem sequer soubem que na minha vida lhe tevessem uma missa na paróquia. Nom som católico e nom me importa que haja missas, mas é um exemplo de que a Igrexa católica nom trata a todos os mártires igual. Mas podesse dizer que Evaristo Lôpez só é o mártir duma paróquia perdida e desabitada, nom assim Alexandre Bôveda, fervente católico assassinado também um dezasete, e vinculado ao Páramo pela militância do Partido Galeguista.

As gentes democratas do Páramo temos no dia dezasete três santos laicos, por mais que a Igreja nom os canoniza-se, porque como dixeo Castelão: "Os mártires serám santos".

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 29 de outubro de 2007
OUTONO
Na Galiza rural o outono tem um significado especial, porque é morte e vida, como noutras partes do mundo, mais cá dum jeito especial arredor das colheitas. É o tempo da vendima, da esfolha do milho, das castanhas, das nozes, das bolotas...

Nom é muito de entender que, este ano, alguma gente vira que nom chovia e dexêse que facia bom tempo, porque a nóssa Natureza necessita da humidade do outono. Penso, por exemplo, nos cogumelos que, aparte de sêr alimento de humanos e animais, cumprem um papel na formaçom do humus e vivem em simbiose com outras espécies. Bem vida pois a auga do outono.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 9 de outubro de 2007
O CAROZEIRO NA MEMÓRIA
A paróquia de Barám, pertencente a Paradela, foi fiel á legalidade republicana e exemplo da luita antifranquista, e dessa paróquia foi o Golás, secretário provincial do P.C.E., assasinado nos anos quarenta. Mas nom vou falar do Golás porque sei mais por mitificaçom que por informaçom. E quixê-se falar do Carozeiro, a quem conhecim pessoalmente, graças a que tinha familia em Friólfe, e sei que professava uma admiraçom por mim quando era eu adolescente.

O Carozeiro era um bom vizinho, fascinado pelo progresso que prometia a II República. Foi detido pelos sublevados fascistas; logrou fugir e cortou as esposas com uma machada, produzindo-se feridas nas mãos. Parece sêr que lhe amortiguaran a repressom, já que inicialmente o iam matar. Pouco mais sei porque quando as circunstâncias politicas o deixavam falar as leis da vida levaram-no a outro estado da matéria, mas quero render-lhe esta pequena homenage porque me indignei muito ao ouvir-lhe a uma pessoa criada no fascismo que era mau, que estevera preso.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 24 de setembro de 2007
ANTE QUÊ ESTAMOS?
Dim que o Páramo se vai modernizar, e quem dim isso basseam-se na autovia, que troixo ao Concelho dano ecológico e mais nada, no caminho de ferro, que seria bom se os comboios parassem, num poligono industrial que para nada necessitamos, numa futura urbanizaçom arredor do nósso Campo da Feira que o relegará a jardim urbano, e num nefasto parque eólico destruidor da nóssa montanha.

É hora de menos modernidade e mais progresso. O modernismo foi uma corrente artistica de principios de seculo passado, agora toca o progresso, o desenvolvimento sostível, e nom podemos renunciar ao futuro do nósso Concelho relegando-o a sêr uma mera zona ressidencial dentro de dez ou doze anos. Temos um futuro de agricultura respetuosa com a Natureza, e já nom digo ecológica.

Recordo ao Novo, pessoa da minha paróquia tristemente finada nova, que se dedicou ao comercio de pensos, sementes... Um dia no autocarro ouvim que lhes abrira os olhos aos lavradores, mas aquele home que troixo as escouras Thomas a Friólfe e que aconselhava combinar leguminosas com gramíneas, nom crêio que gostá-se da agricultura que se fai hoje.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 13 de setembro de 2007
EVARISTO LÔPEZ, MARTIR DE FRIÓLFE
Evaristo tinha a taverna mais concorrida pela mocidade de Friólfe, na aldeia de Vigo, á beira do pequeno regueiro Quelhe. Era o que lá chamavam um moço velho, e a mocidade tinha-o por prototipo, especialmente a masculina. Era duma familia profundamente católica e sem filiaçom politica, mas no 1936 obtou pela Frente Popular, e a mocidade da paróquia seguereia-o como exemplo.

No ano 1937, Evaristo sofrereia uma paliza no monte de Santema, da qual non se recuperou e o 17 de Dezembro desse ano morreria.

O que havia na taverna do Evaristo foi comprado por outro taverneiro de Friólfe e quixo-se comprar a balança, símbolo da Justiça, mas esse outro taverneiro também morreu _já fora da paróquia_ num trágico accidente automobilístico.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 11 de setembro de 2007
OS LODOS, POLÉMICA POUCO CLARA
Em terras que me som familiares há um grande rebúmbio devido ao armacenamento de lodos procedentes de ressiduos. Ignoro se quem armacenam esses lodos cumprem umas normas basseadas nuns critérios minimamente ecológicos. E que som contaminantes non o vou negar, pois porcedem dum modelo de consumo que o é.

Mas eu pergunto-me se a soluçom é manda-los ao mar e seguer usando outros abonos que contaminam enormemente.

Gostaría de que essa polémica serví-se para um debate socio-ecológico integral.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 4 de setembro de 2007
SEM FRUTA
Este ano apenas há fruta no Páramo, e a que há é de má qualidade. E, pela informaçom que tenho, noutras partes da Galiza ocorre o mesmo. Som várias as causas, e crêio que todas estám relacionadas. O Cámbio climático produze pragas e a floraçom fora de tempo, nos nóssos regueiros já nom se criam rás nem libelulas e devido á contaminaçom nítrica, aos paxaros insectivos matam-nos os insecticidas e ós omnívoros nom têm que comer e a final acabam sendo pragas eles mesmos, as pestes como o mildiu vem-se favorecidas nom só pelo cámbio climático senom por plantas pouco resistentes e pouco adequadas a estas terras, as abelhas e outros insectos polinizadores estám em perigo de extinçom...

A fruta nas nóssas aldeias tem um valor económico, para o autoconsumo e para o mercado, mas é un valor simbólico dado que muitas árvores frutais eram verdadeiras instituiçoms, e a fruta dá uma ideaia do tempo e estava vencelhada à historia das pessoas.

Agora eu pergunto-me como muita gente nom se sinte afectada pela falta de fruta, simplemente porque lha vendem-no sobremercado, criada e transportada com produçom de contaminaçom e às vezes mão de obra barata. Eu nom entro nisso mais do necessário, mas é inevitavel.

Pouco podemos cambiar nós do macromundo, por exemplo frear a contaminaçom de USA ou China. Mas podemos cambiar o micro-mundo, tendo um ar limpo nas nóssas aldeias, augas limpas, cultivos que ajudem a manter o equilibrio da Natureza... E todo isso é posível se das nóssas aldeias fuxe a tolémia consumista, e se o lume nom se apaga com gasolina, dizendo coisas como que o cámbio climático fai gasta em herbicidas.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 30 de julho de 2007
AS LAGAS DE FRIÓLFE
Em Friólfe, como em toda a zona, o linho foi um cultivo fundamental. Eu só recordo verlho cultivar à prima Felicitas da Casa Nova, mas de jeito silvestre segue medrando nos prados e montes, até o ponto de sêr considerado praga, dado que ao gando nom soe gostar-lhe muito.

O trabalho do linho era longo e entre esses trabalhos estava o levá-lo e sacá-lo da laga, onde o mais brando se separava dos filamentos lenhosos.

Em Friólfe havia muitas lagas, e as que mais perdudaram foram as de Vigo, as de Outeiro e a do Chato na Seara. Algumas lagas eram meros poços do regueiro ou entre os penedos, onde a auga levada por pequenos regos era doada de ancorar. Noutros casos eram pequenas obras de arquitectura com as suas paredes e passadoiros. Mas as novas geraçons nom veram as lagas de Friólfe, dado que a maioria foram recheias de escombro, porcedente de casas arranjadas ou terra das carreteras, quando nom se meteu directamente uma pista por elas.

Somos assím. Que lhe imos fazer? O mundo rural dim que nom se apoia, e é certo, porque em poucas partes se deixam fazer as barbaridades que cá se fam e esta, por pequena que seja é uma.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 4 de junho de 2007
Novos tempos, novas soluçons
Celevrarom-se há uns dias as eleiçons municipais e embora eu non tenho voto no Páramo botei de menos que nengum partido tocá-se o que realmente som problemas sérios no concelho pelo que se me conhece. A perda da paisage, que nom deixa de sêr uma riqueza mais, a contaminaçom nítrica das nóssas augas, a biomassa convertida em matéria prima para incêndios, os monocultivos degradadores da fauna _incluida a microfauna do solo_ as escombreiras... Nom parescia importarlhes aos nóssos candidatos, como nom lhes importa demasiado a nóssa saúde nem a qualidade de vida em geral. Nom ouvím para nada falar de meio ambiênte, por mais que desde Fidel Castro a Bush, todo o mundo fale deste tema.

Está bem que se façam pitas e se ponha alumeado público, mas primeiro e que a gente esteja nas aldeias por algo mais que por uns subsidios que mais cedo ou mais tarde se vam acabar. E ensinémoslhes aos nóssos paisanos e paisanas que muitos serviços nom os necessitam, porque compostando nom havería escombreiras nem seria necessária a recolha do lixo e os seus produtos seriam melhor pagos.

Com este artiguinho quero recordar a memória de dois intelectuais que conhecim no Páramo, finados. A d. Eladio, cura de Adai, e a d. Emiliano, mestre de S. Martinho da Torre, que puxeram o seu intelecto ao serviço do povo.

Suso L. Gaioso
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Publicado o sábado, 28 de abril de 2007
UM PEQUENO "PRESTIGE" EM FRIÓLFE
Dias atrás saia na imprensa que um camiom deixara na estrada que atravesa Friólfe, vindo de Paradela ao Páramo, ressiduos de granjas em mais de cem metros, e pesse à rápida limpeza attraiu grande quantidade de insectos, o qual nom tem nada de beneficioso, e menos aquelas sustâncias que vaiam as augas.

Pôde até certo ponto parescer lógico um accidente deste tipo numa zona onde há granjas, mas o descontrolo com os abonos e outyras coisas é total, botando-se no cauze da e pequenos regueiros que antes soiam ir encanhados, ademais de tratar-se de abonos orgánicos e minerais de sintese já de por sim danhinos ás ecosistemas.

Suso L. Gaioso
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Publicado o sábado, 21 de abril de 2007
Dentro de mim
Dentro de mim vam dois lugares da minha paróquia que ficam semivazios -e outros ficam de tudo-. Muito vencelhados à minha literatura e a minha vida em general, o Mato e Vilarinho som lugares à beira do regueiro da Varja, que dá nome à casa dos meus antepassados, ambos conhecidos pelo seu centeno e pelos coelhos criados com leguminosas lenhosas. No caso do Mato tambén pelos seus moinhos.

Resulta-me impossivel que a energia que outra hora houve nestes lugares se perdê-se, e isso que estou só pen sando na ciência, nom na religiom.

O Mato e Vilarinho som insignificantes no conjunto da Galiza, mas som o exemplo da parte mais repressentativa -a rural- dessa Galiza. A sabedoria acumulada em miles de anos perdê-se na era das comunicacçons e a formosa arquitectura vai-se desfazendo, a menos que haja quem a compre -e quem a venda-. O cristalino regueiro está cheio de argaços alimentados pelos nitratos. Já nom se sintem cantos da gente, mas também nom de râs. Já nom se fai torta de milho nem se assam castanhas. Os ameneiros já nom se cortam para çocos e çocas, etc.

Este é o retrato de dois lugares da minha paróquia, mas sobrepassa a Galiza. Recordo aquele filme intitulado "O diputado voto do senhor Cayo", como algo premonitório do que está passando no Páramo, e quando escrevo sobre isto sinto uma tremenda urgência por rescatar algo que já quase é impossível, e que as vindeiras geraçons nom entenderán quiçá, mas ai, ao lado de absurdos pre-conceitos e misérias, estava o equilibrio com a Natureza e uma realizaçom cultural hoje usurpada pelo consumismo e a frivolidade. E pesse ao medre económico de muita gente, a qualidade de vida no rural segue sendo miseravel e decadente.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 2 de março de 2007
VOLTAR AOS TORNADOIROS
Uma noite sonhei com os Tornadoiros; um sítio de Friólfe onde o pequeno regueiro que baixa pela minha aldeia se parte para regadio, onde meu avô Jesus lhes puxo as coisas claras a quem, com trampas lhe queriam quitar o direito a adquirir uma propiedade, onde vim formosos tordos e onde há folganças nas que havia intimidade de espécies vegetais. Sonhei com os Tornadoiros e a tomba de aquela cadelinha, de curta vida, que eu enterrara à beira dum pequeno carvalho, quando também os havia centenários e também havia castinheiros. Logo mais tarde enterrei tambén por lá ao Rui, um cam que me acompanhou bastantes anos. E foi nas folganças dos Tornadoiros onde lindei as vacas muitas vezes.

Quando despertei de aquele sonho sentim uma profunda saudade. E digo saudade e nom morrinha porque penso que som coisas distintas, e nom só sinto o passado senom o futuro, agora que os Tornadoiros estám sem árvores centenárias, mas pelo demais estám como estavam, quero pensar que nom se destruirám os micromundos e que voltarei vêr tordos e que as augas voltaram baixar limpas. Nas terras do lado já nom há cheiro de furom nem o canto das rás, e apenas se vêm pessoas, mas a conservaçom dos Tornadoiros faime pensar que a Galiza rural seguerá vivendo.

Suso L. Gaioso
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Publicado o sábado, 24 de fevreiro de 2007
DELHE
Há algum tempo escrevim um guiom para um programa de Rádio Clavi no que falava desta aldeia singular que foi a minha segunda aldeia, já que nela tinha aos meus avós maternos, e ia a miudo, e aquele guiom que penso que tinha uma certa qualidade foi ao lume, como um apontamento mais, porque o levava no peto com outras folhas que nom meresciam sêr comservadas. Mas hoje quero re-escrever aquilo, recordando a autonomia juridica de aquela aldeia, da qual poucas vezes um notário levantou acta, mas como "a costume fai lei", aquela aldeai, regiu-se sempre pela costume.

Delhe tinha _tem_ o seu regueiro, que nasce junto da aira dos meus avós, e baixa até a fonte da Lavadoira que lhe dá mais auga da que trai, mas antes havia uma fontinha no meio duma corga que nom sei onde vai desde que botaram cimento á corga, suponho que a encanharom a uma beira. Delhe, como escrevim nalguma ocasom, era cantos na noite e o canto duns paxarinhos que viveiam em harmonia com o que facia o ser humano. Era também contar histórias no escano da lareira, comendo torta de milho e leite "feito". Era uma vida que se perdeu, e que eu quero resgatar cá na memória do meu bistio Casa Nova, que estevera preso pela sua participaçom na revoluçom de Asturies, e a prima Felicitas que nos facia aqueles estupendos manjares.

Suso L. Gaioso
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Publicado o mércores, 7 de fevreiro de 2007
UMA REALIDADE
Denúncio desde há anos a desfeita da Galiza rural, e muito lonjana fica a minha literatura bucólica na que defendia esse meio, do que hoje apenas ficam alguns ressiduos.

Fixo-me sofrer que no Páramo sentara mal a posta em marcha dum Plano urbanistico, que pelo momento desconheço, o mesmo que quem diz que nom facia falta. Ignoro esse plano mas era de urgência, por riba de conceiçons políticas e de outro tipo. Mas nom fiquemos com a recuperaçom da arquitectura como algo derradeiro, senom como o último duma época na que temos muito que fazer, e recuperemos a vida dos regueiros, recuperemos as nóssas feiras...

Recuperemos as ânsias de viver dando aos nóssos maiores e à nóssa infáncia uma qualidade de vida que repercutirá no bem-estar geral. Na minha terra, como no rural en geral, existen dementes senís sem nengum tipo de ajuda psicológica que viram cair o seu mundo e som imcapazes de aceitar umas transformaçons sem jeito. A nóssa infância estuda inglês mas apenas conhece a história da sua aldeia. O des-interesse pelo nósso é total e resultará dificil recuperá-lo se temos em conta que muita gente está emigrando áo urbano e mesmo fóra da Galiza, e que a gente que se establece de novo no rural nom pôde manter aquilo que nom conhece e que tem dificil accesso ao seu conhecimento, dado que os nóssos maiores ás vezes sintem-se sem força para explicar o que sabem, dada a invasom de imformaçom totalmente alheia à súa realidade, a uma realidade milenária que cumpre manter como algo mais que folclore, embora eliminando aquilo que de negativo póssa têr.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 15 de janeiro de 2007
Adeus, terras do Páramo
Pelo Páramo passa a auto-vía, que seica vai dar muita vida ao Concelho, mas as pistas ás aldeias, nalgum caso, levam uma década intransitaveis. E a estaçom do caminho de ferro servirá para que parem os comboios? e o polígono industrial servará para que se asentem industrias ou ficará numa mera destruiçom ecologica dirigida por escuros interesses económicos?

Temos, isso sim, uma grande politica cultural, capaz de separar os magostos do Samaine _e perdoem-me que um crêeu que esta festa é invassom cultural_. Nom falemos da arquitectura, porque deve sêr o único sítio onde cada vez se fai mais feismo.

Os regueiros do Páramo, carregados de nitritos, já nom têm ràs, a plataóm arvorea para nada se ajusta á realidade dessa terra...

Em fim, no ano da Memória histórica, o Páramo perdeu memória e perspectivas de futuro.

Suso L. Gaioso
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Publicado o mércores, 29 de novembro de 2006
REQUIEM POR VILARINHO
O outro día souben que morrera a Lucita, velha amiga. Morreu nova e sorprendeu-me porque as últimas vezes que a vira estava cheia de energia. E com ela acaba-se um lugar de Friólfe que embora pequeno estava cheio de história e simbolismo. Quase no cimo da Montanha, o seu abrigo ao Norte dava-lhe um microclima distinto do de outros núcleos da paróquia, as suas casas e paredes eram duma beleza impressionante, foi sitio de grandes rebanhos de ovelhas e até teu uma jurisprudência própia comas terras compartidas. O nome de Vilarinho sonaba na literatura popular, mentres o regueiro que lá nascia se agachaba por vezes baixo terra, grazas á composiciom caliza desta terra.

Agora Vilarinho já nom existe, como outros lugares da paróquia e do concelho e a única esperanca é que um dia haja uma ecoaldeia nesse sitio.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 10 de novembro de 2006
O PÁRAMO. ANO DA MEMÓRIA HISTÓRICA
Como paramés sentim uma especial raiva este ano, quando em todo o Estado se chorava aos mortos e mortas, eu nom soubem que no Páramo se recordasse a Evaristo López, o mártir da minha paróquia, ou ao senhor Dositeu, aparescido numa cuneta no Alto do Pico um dia de feira na Póvoa. Naide recordou a música do Calinha, calada com a guerra, nem a genial pluma de Doroteu Benavente, que teve a mesma sorte. Con estas letras quero recordar a todas e todos os que no Páramo sonharon um mundo melhor, pesse a quem pesse porque falsificadores houve-os sempre, mas a mim nom me vam negar a histórica.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 7 de setembro de 2006
ONTE FRIÓLFE, O PÁRAMO

Dias passados, num bar de Lugo, achegou-se um home a mim e perguntou-me se estava nas Comissons Labregas e eu dixem-lhe que nom; entom ele dixo que me parescia muito a outra pessoa. Eu nom estou em nengum sindicato agrario, e penso que nestes momentos nom há nengum que se chame Comissons Labregas, mas quando o home em quêstom se ia marchar reconhecin-no e soubem que essa pessoa à que dizeia que me parescia era eu noutra época da minha vida, e quixem dar-lhe explicaçons, mas ele saiu apresa.

Nom me imparta muito que me conheçam como sindicalista, mas agrada-me que me recorden, e isso fai-me recordar aqueles tempos de assembleias labregas em Friólfe, e noutros sitios do Páramo e da Galiza inteira. Mas som tempos distintos. Hoje nom há labregos senom lavradores, metidos de cheio na sistema capitalista. E possivel que Emilio Lôpez Pêrez nom esteja de acordo, mas a terra nom é uma mera ferramenta de trabalho. Um sindicalista dixo-me nom há muito que os lavradores nom estám globalizados porque nom sabem em que mundo vivem, e eu perguntome quê é a globalizaçom. Se miramos a sociedade os lavradores nom estám integrados, mas se miramos a sistema social estam-no, nas cloacas da sistema, mas estám.

Recordo aquelas reunions baixo o nogueiro do Mogenas ou na casa do Henrique e penso que Friólfe onte sim, a Friólfe rebelde e solidária, nom a que me contam hoje de quem se queijam por nom poder fazer o purine mais contaminante com fermentaçom anaeróbica, por nom poder fazer mais feismo urbanistico... E por isso digo: Friólfe onte sim. Friólfe amanha espero que sim. Friólfe hoje, a pessar de tudo segue tendo fermosas paisages.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 15 de junho de 2006
NOVÁS
Quando o auto-carro me deixa na parada tenho que passar por uma formosa terra de aluviom que se chama Novás. Ao lado está o Cochom, terra ardida que demonstra que Friòlfe nom é só montanha senóm que tem parte na campinha do Páramo, e no Cochom está a Careoa, onde este ano há centeno. E ao outro lado está Pedride, terra de grava, banhada pelas augas quentes que baixam de Trás a Veiga.

Um dia vim em Novás um carvoncinho, paxaro insectivoro que cria extinguido no Páramo. Também vim rulas e outros paxaros, pesse a que em Novás já nom há centeno senom pinheiros.

Novás está formosa, mas arriba de Novás vim como um sem-vergonha botara herbicida na valeta da via publica arredor das terras que foram dos meus antepassados, e um pouco arriba roçara-se um arredor onde aninhavam os paxarinhos. Nom foi nenguma instituiçom, nem foram ressidentes do sítio. E outro dia vim abaixo de Novás como botaram herbicida junto ao regueiro, quiçá alguém que fai pesca clandestina.

O mais mau de tudo isto, o mais desesperante é que os dias que vim estas aberraçoms vim uma patrulha do Seprona e vim ao delegado de Medio Rural no Páramo. Triste que as autoridades e os seus agentes nom vejam as barbaridades e façam cumprir a lei, e adapten a lei aos tempos que correm.

Suso L. Gaioso
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Publicado o sábado, 20 de maio de 2006
O Campo da Parede
A Parede é uma formosa aldeia de Ferreiros, no concelho de Paradela e na montanha do Páramo, que foi castro e pelo tanto tem um tesouro agachado. Fala-se também de que na Parede se torturou gente nos tempos da Inquisiçom, mas a falta de documentaçom nom vou falar disso. O que é certo é que a Parede era uma soa casa e graças a uma antepassada minha, dos da Varja de Friólfe, e ao "des-governo" dos descendentes a Parede converteu-se numa aldeia.

Na Parede há uma carvalheira que ignoro a sua situaçom juridica, mas a última vez que passei pela Parede sentim-me muito mal ao vêr que tiraram varvalhos centenários para fazer obras de feismo urbanístico aberrante, naquela formosa carvalheira, chamada o Campo da Parede, na que en tempos faciam uma festa, e na que lhes dizeian ás crianças que havia um orangutam.

Repito que ignoro a situaçom juridica do Campo da Parede, ainda que a mim me dixeram que um pedreiro afirma que é propriedade da sua mulher e que por isso tira carvalhos centenários para fazer feismo.

Seja quem seja, no plan o administrativo e jurídico, o Campo da Parede é do pvo galego e dos cidadans e cidadás do mundo, e pelo tanto a súa conservaçom é urgente. E certo que eu nom faço uma analise objectiva, porque na Parede teve parentes por vaia paternal e maternal, mas um tolo que nom vai ao psiquiatra nom pôde seguer destroçando um sitio tam formoso entre outras coisas porque nom é dele.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 10 de abril de 2006
DESTRUÍMO-LO TUDO
Tenho-me queijado da desfeita da arquitectura rural, que é grave, mas que passa com a engenharia, essa arte que por sêr a expressom mais alta da técnica nom deixa de sêr arte, e como toda arte tem uma ciência detrás.

Faltam as paredes, onde se refugiavam os depredadores de pragas. Aqueles canhos de pedras que aparte de manter a temperatura da auga permitiam-lhe levar oxigeno e sales foram sustuitidos por tubos de cimento. As presas dos regueiros foram sustituidas por outras horriveis de cimento...

Nom quero escrever muito. Nom me vêm agora, mas dizer que no rural se destruiu tudo e que eu nom quero sêr complice. As reitorais están muito bem graças a impostos de apostatas, ateus e pessoas de distintas confessoms, mas quê passa com os velhos moinhos?

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 16 de fevreiro de 2006
CARRASAL
Carrasal é un formoso sitio da minha paróquia que dá nome a un regueiro, onde há desde tempos remotos um lavadoiro e onde esteve o primeiro transformador eléctrico que FENOSA puxo na próquia, e noutros tempos havia lazas para o linho. Há uma fonte de auga sabrosa, mas a última vez que eu fum até ela estava rodeada de excrementos humanos, o qual me dou uma raiva enorme, mas nom é raaro numa terra onde a contaminaçom e os maus habitos som por desgraça normais.

O regueiro de Carrasal, desde o sítio que lhe dá nome vai pelo seu cauze e mais por uma canle que serveia para regar prados e mais para os Moinhos do Mato, actualmente abandonados, e nessas augas havia rás e á sua beira paxaros insectívoros. Hoje as rás desaparesceram graças ao purine mal fermentado e a outros tipos de nitratos. Os paxaros insectivoros tambén desaparesceram.

Carrasal pôde que nom seja o centro geografico da minha paróquia, mas é o centro simbólico, onde um crente católico dizeia que debia estar a ingreja, e eu tantas vezes dixem que debia haver uma biblioteca, mas nom foi nunca possível fazê-la. Pelo tempo que eu empecei a pedir aquela biblioteca fixo-se um potro para inseminaçom das vacas, actualmente inutilizado, que bem valeria para essa biblioteca.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 26 de janeiro de 2006
VINHO E OUTRAS COISAS
Dom tomás foi veterinaário muitos anos no Páramo. O outro día coincidín com ele e contoume que quando ele chegara a aquela terra era um paraisso. Falou-me da caça, da pesca, do vinho e de todo esse micro-universo perdido e recordei aquele tempo da minha adolescência e também da infância. Tempos duros, é certo, mas nos que eramos praticamente autogestionários e nom se conhecia o consumismo, sim o consumo que nom é o mesmo.

Naqueles tempos a abundaância de pesdizes, lbres,... gracia ao Páramo caçadores que eram mais respetuosos com a Natureza que os da agora, e deixavam bastante dinheiro nas tavernas do sitio. Muita gente facia dinheiro pilhando congrejos do rio, os peixes eram sabrosos e as anguias andavam pelos prados. Todo isto é tempo passado, e dubido que se repita.

É certo que hoje o lavrador vive economicamente bem, graças ás subvenciçoms de Europa, mas destruiu o seu meio, e o medre económico nom foi para todos, e muita gente teve que emigrar. É certo que hoje há boas vias de comunicaçom mas também é que algumas pistas están intransitaveis, e para fazer essas pistas paleas que só se pôde andar a pé em tempo seco destruiam-se pontas, fontes,...

O progresso do asfalto non é o único nem o máis importante, mas se o progresso do asfalto se converte em abrir pistas e tardar vinte anos em porlhes firme, esse progresso, converte-se num retrocesso aberrante.

Suso L. Gaioso
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Publicado o martes, 3 de janeiro de 2006
LEMBRANÇA DO GERARDO DO CASTRO
O Gerardo chegou um dia à paróquia, vinha acompanhado duma sobrinha, que à sua vez era a sua companheira sentimental, o que nom caiu bem numa parte da sociedade totalmente fecha, até o ponto de que nom viam bem que as nenas levassem médias de cristal ou os nenos andassem sem camisa nos quentes dias de verao. Mas Também eram os tempos da transiçom, de certa liberdade, uma transiçom que o Gerardo viu mal, pois ele era republicano, eu o definim há tempo como o derradeiro republicano da minha paróquia. Perguntaram-me se logo eu... Eu som uma pessoa republicana sim, mas eu son coisa distinta do Gerardo, para ele a República erá-o tudo, ele para tirar adiante queria voltar a aquele regime que truncara o fascismo que tanto odiava.

Chegara da Argentina, aonde se fora depois de ser mineiro em Asturies. Ao primeiro rumoreou-se que vinha rico, e tracia uma pequena riqueza, que era a sua juvilaçom, depois de toda uma vida de trabalho, e veu por uma pequena riqueza, que foi morrer na sua terra.

Contador de chistes, de histórias reais, caçador respetuoso com a Natureza, leitor de periódicos, saboreador do bom vinho, velho lavrador que voltava á sua adolescência quando colhia uma fouce, andante dos velhos caminhos... Aquele home que falava um galego misturado com o espanhol argentino troixo muito á minha paróquia, porque graças a ele as gentes moças conhecemos a história e as gentes velhas puderam falar dela sem vergonha nem medo. Por isso a mim se me fai hoje necessário lembrá-lo, num momento em que o mundo rural está muito mais desfeito que quando ele veu.

Enterramos -recordo bem- ao Gerardo um dia calmo em que nom facia frio nem calor, nem havia vento. Semelhava que o Cosmos o levava com a calma que ele vivera, com essa calma que tanta falta nos fai para afrontar o presente e o futuro, e que de nengum jeito é conformismo. E lá fica no cemitério, mas mentres o recordemos a paróquia nom morre porque na nóssa memória haverá tabernas, moinhos, asserradeiros...

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 7 de novembro de 2005
LEMBRANÇA DUM DIA CHUVOSO
Era um dia chuvoso no Páramo. A baíuca estava fecha, e diante da sua porta esteve falando com um rapaz da situaçom do mundo, do avance imparavel de China, da belicosidade yankee, o cámbio climático,... Até que a taverna abríu. Colhim tabaco e apenas parei. Seguem até o monte de Santema com a esperança de achar uma pedra de ferro para fundir. Achei pedras com ferro, mas quarçosas e, pelo tanto, impossíveis de fundir. Os caminhos estevam cheios de rastolhos, o abono natural que a Natureza forma para manter-se tira-se aos caminhos, e botam-se abonos de sintese contaminantes.

Passei por junto do caseto que no franquismo simboliçou a ressitência ao regime, e está caíndo, como outros muitos, mas tem para mim bos recordos, e desde perto desse caseto vim o castro de dificil accesso que há anos estava coberto de carqueijas e agora tem érva. Junto do castro passa um regueiro de augas ferrosas, que ao receber um afluimte mais abaixo forma uma terra de lagoas onde há peixes que resulta bem dificil que subiram do rio Minho ou do outro regueiro do que é afluente este. Há bem tempo que eu penso no dificil que sería para as espécies acuáticas ir dum sítio a outro e cheguei á conclusom de que poderam xurdir em vários pontos á vez.

Esteve num meio ao que tenho grande carinho, mas que acho cada dia mais destruido, e mais uma vez pedo protecçom.

Suso L. Gaioso
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Publicado o luns, 26 de setembro de 2005
O RIO DA PONTE
Há algum tempo escrevim um artigo sobre o Rio da Ponte. Sitio mítico da minha paróquia. Mas o Jaureguizar perdeu esse artigo. Entóm quero escrevê-lo de novo, mais mais resumido.

Quando escrevem aquele artigo, eu, passara pelo Rio da Ponte e nom vira eucaliptus nem coisa parescida. A última vez que passei pelo Rio da Ponte vim eucaliptus onde antes era terra de grandiosos ameneiros.

No Rio da Ponte juntam-se o regueiro do Varja, que dá nome á minha casa, e o regueiro de Carrasal. E no Rio da Ponte houve dois moinhos que eram o do Novo e o de Ribeira. E há uma história mítica de braços de fume, de cefalopodos humanos, de mulheres que discuten sobre qual é puta...

No Rio da Ponte há um microclima pela sua fundura, e eu recordo pesceber esse microclima. Lá empeça o que o Exército espanhol chama Vale de Escouprim, mas os lugarentes nom entendemos porque esse nome imposto.

Fum muitas vezes ao Rio de Ponte buscando a fussom com a Natureza. Passei pelo Rio da Ponte de Noite, quando ia de falar com a Pili e o Froilan do Mato, recordava ao Gerardo do Castro, que tantas vezes andou por este sítio. Uma vez de meditaçom recordei aquela moça guapa que vira na festa das Doras em Paradela. Som muitas as minhas vivenças no Rio da Ponte, e por isso mesmo pido que se conserve, que o capitalismo nom penetre nesse fermoso sítio e que segam medrando os ameneiros fabricantes de nigrogenio.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 21 de julho de 2005
UM QUIJOTE NO PÁRAMO
O Páramo é terra de "quijotes", mas literariamente só o nósso escritor republicano Doroteu Benavente viu essa realidade. Existem familias paramesas-manchegas, mas nom sei até que ponto se pôde falar duma afinidade entre o Páramo e a Mancha.

Neste quatro centos aniversário da publicaçom do Quijote, eu quixé-se recordar a algum "Quijote" do Páramo, e penso que o José é o máis representativo.

Conhecim ao José sendo eu adolescente. Vinhera arranjar-lhe uma gramola a outro adolescente, familiar da minha paróquia. Era de aquela famoso em todo o Oáramo pelas paredes que facía, pelas suas habilidades para a pesca clandestina,... Mas pronto se fazeria famoso pela sua adicçom ao alcool e por ser a pessoa mais blasfemadora da história do Páramo. Botava dias de trabalho a cámbio dum carrinho de mao sem roda ou outra coisa avariada, ele sempre queria, aparte de vinhyo, coisas avariadas, porque desse jeite elevava a autoestima dizendo que as arranjava, penso eu que era por isso, mas já nom arranjava nada. Uma vez viu-me uma navalha com mango de pau e cambiouma pela sua. Eu dixem-lheque a minhya navalha era de mal corte, mas ele dixo que nom importava, que ele era um grande afiador e que gostava das navalhas de mango de pau.

Na última metade da década de novecentos oitenta circulou bastante literatura maoista pelo Páramo. Penso que o José nunca leu um planfleto inteiro, mas identificouse com o maoismo, convencido de que no Páramo era certo que era onde mais agudiçadas estaban as contradiçons, e o José, entre coas de vinho de cartom, falava do partido. Quando lhe perguntavam o nome do partido limitava-se a dizer que era un partido novo, forte, e que todos iam armados. Falava das suas intervençons em multitudionários mitins que naide vira. Falava de noites de pintadas, e penso que nunca fixo uma...

Ocorreu um dia que o José ia pelo monte da Costa e viu uma gente carregando tojos no remolque dum tractor. E o José, que iria pensando na revoluçom maoista, marchou-se á aldeia mais proxima avissar de que havia guerra, que aterriozara um elicóptero no monte da Costa e os soldados andavan apnhando tojos para poder montar o campamento. Nenguén foi capaz de convencer ao José de que non havia tal guerra, que ali havia um tractor e gente carregando tojos destinados a abono. O José só se tranquiliçou uma vez que teve bem vinho no corpo.

Há anos que morreu o José, e longe da burla ao tolo, quero fazer-lhe uma pequena homenage, porque dentro do delirio, e penso que alucinaçom, foi uma pessoa honesta e bondadosa.

Suso L. Gaioso
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Publicado o xoves, 23 de junho de 2005
"SIC" Voltou
Depois de andar pela França, Euskal Herria e outros paises voltou a Lugo. Tracia o seu sorrisso sincero e uma pensom que tem que convalidar cá.

"Sic" estava contento o dia que o vim. Os Serviços Sociais da Cámara municipal de Lugo iam-lhe dar uma ajuda, e tendo essa ajuda e a pensom podia comprar uma guitarra, que é o seu instrumento preferido.

Eu recordo quando eu e o "Sic" eramos "punkis", embora nom levassemos cresta no pelo. Nós renunciamos a morrer novos e ser cadaveres bonitos. Outra gente renunciou a mais. O "Sic" preguntoumo por aquela moça, e contei-lhe que está gorda e depremida. Perguntou-me por aquele repaz que ia de revolucionário e agora "pissa" a quen pôde. Tudo se acaba, mas mentras o "Sic" póssa comprar uma guitarra e eu um livro, a vida segue.

O "Sic" valora muito a amizade. Ele recorda como os vizinhos, inimigos da sua familia, lhe davan coisas no Natal.

O "Sic" é uma bela pessoa, que sabe de trabalhar e de mendigar. E um grande artista, embora sempre toque o mesmo.

O "Sic" sempre me pede que escreva sobre ele, e eu trato de fazê-lo, mas nom sempre pósso escrever sobre uma pessoa tam grande.

Suso L. Gaioso
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Publicado o venres, 27 de maio de 2005
Os Casás
Os Casás era na nóssa infância um sítio mítico, onde alguma criança dizeia que havia brujas. Era uma casa na que um crime e outras desgraças a fixerom ficar valeira. Naqueles tempos a dialectizaçom do galego do Páramo era muito forte e dizeamos Casás sem artigo.

Uma vez fum aso Casás com o seu propietário Henrique a apanhar tojos. Logo choveu e estevemos dentro da casa e o Henrique contou-me toda a histórica que conhecia. A casa estava conservada e foi da melhor arquitectura que vim no Páramo, com um aproveitamento dos espaços, formando beleça, impressionante, e quiçá o que mais me chamou a atençom foi como a auga duma fonte, a uns cen metros, vinha até a casa por um rego lavrado na pedra.

Voltei outra vez passar pelos Casás, crêio que buscando cogumelos. O Henrique já nom ia por lá porque estava doente. A casa estava aberta e entrei vê-la. O abandono notava-se, mas aínda nom estava na situaçom que a vim por última vez, já morto o Henrique, coberta de silvas. Aquele día era soleado e, à beira da casa dos Casás sentim cantar as perdizes, fixem um escrito sobre aquela situaçom marabilhosa, que quasse pósso dizer mística, um escrito que nom sei onde metím.

Recentemente souben que a casa dos Casás fora destruida e entristeceu-me, porque se vai histórica e se vai arte. Aguardo que a formosa carvalheira centenária que junto da casa habia, e pertencia aos mesmos donos, nom leve a mesma sorte que a casa. Mas no Páramo nunca se sabe porque as desgraás seim vir acompanhadas.

Suso L. Gaioso
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